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Tarsila do Amaral Arte Moda Costanza Who

Arte & Moda: Tarsila do Amaral, uma mulher à frente de seu tempo

Quantas artistas mulheres você conhece? Em 2017, apenas 20% das obras da Pinacoteca foram realizadas por artistas mulheres. No acervo no MASP, era ainda pior: 6%. Não é de se espantar, então, que a resposta para essa pergunta não chegue à casa das dezenas para a maioria das pessoas.

O fato é que as mulheres sempre tiveram pouquíssima abertura no meio artístico, e a questão da representatividade feminina nos museus está em alta no mundo todo. E nessa onda, o MASP anunciou, para 2019, uma série de exposições e debates que tem a mulher como eixo temático. Entre elas, a recém-inaugurada de Tarsila do Amaral, que ganha sua primeira grande mostra no museu com 92 de suas pinturas e desenhos mais relevantes.

A brasilidade de Tarsila

“Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra”, escreveu Tarsila do Amaral em uma carta enviada a seus pais de Paris, em 1923. Um ano antes, acontecia no Brasil a Semana de Arte Moderna, uma manifestação inspirada no processo que se desenrolava no mundo e incitava uma revolução artística que, entre várias características, tinha uma forte tendência à temática nacionalista. Tarsila, embora estivesse fora do país quando os eventos foram deflagrados (só soube deles por uma carta de sua amiga Anita Malfatti), não poderia estar mais conectada ao ar dos tempos. “Paris está farta de arte parisiense”, conclui.


tarsila do amaral moda arte 2

Neta e filha de fazendeiros do café, a artista nasceu em 1986 e cresceu no interior aristocrata de São Paulo. Mais tarde, passaria grande parte de sua vida adulta entre idas e vindas na Europa, estudando ao lado de nomes importantes como André Lhote e Fernand Léger. É desse grande contraste entre a vida quase rural no Brasil e o contato com as grandes vanguardas artísticas na França que se formam os traços e temáticas de Tarsila. Sem abandonar a matriz modernista, a artista volta-se para personagens, temas e narrativas ligadas ao popular do Brasil.

Em 1928, ela criaria o icônico Abaporu, cujas proporções causam imediata estranheza — exatamente como ela pretendia. “Era aquela figura monstruosa, né? A cabecinha, o bracinho fino apoiado no cotovelo, aquelas pernas compridas, enormes. Eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald [de Andrade]”, contou Tarsila em uma de suas últimas entrevistas, cedida à revista Veja.

A ideia por trás de “Tarsila popular”, que fica em cartaz até o final de julho no MASP, é promover reflexões sobre a obra da artista modernista, cujos temas e imagens evocavam parte de sua própria história e frequentemente estavam inseridas e ressaltavam o contexto social, político e racial da cultura brasileira.


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Arte, moda e feminismo

Que o mundo artístico sempre foi majoritariamente dominado por homens não é novidade, mas sempre achei curioso como até na moda as mulheres não foram as principais protagonistas ao longo da história. Me parece um tanto quanto contra intuitivo que um homem saiba melhor como vestir um corpo com o qual não tanta intimidade assim. Não que nomes como Christian Dior, Alexander McQueen, Yves Saint Laurent não fossem criadores incríveis, mas onde estavam as mulheres?

Pois Coco Chanel existiu para ser a exceção à regra, e provar que conseguia captar como poucas o que a mulher da época ansiava. Contemporânea de Tarsila do Amaral, as duas tiveram o privilégio de participar de toda a efervescência cultural que tomava em Paris nos anos 20, vivendo ao lado de Picasso, Jean Cocteau e Paul Poiret, para citar alguns. Ambas desafiaram regras da sociedade, quebraram barreiras impostas às mulheres e abriram precedentes que perduram até os dias de hoje. Se hoje você não é escrava dos espartilhos e anáguas, pode agradecer à Chanel.

Além de uma artista singular, Tarsila do Amaral era, antes de tudo, mulher. Modernista, portanto, não somente na sua arte como também em sua própria existência, já que se dedicar profissionalmente à arte, viajar desacompanhada pelo mundo e tomar conta de sua própria vida era uma grande afronta aos costumes da época.



A obra de Tarsila, por sua relevância e inovação estética, sempre serviu de inspiração para outros meios de criação. A mais recente e direta delas foi a coleção desenvolvida pela Osklen a convite da família da artista, que colocou à disposição de Oskar Metsavaht obras e detalhes da sua história. Desfilada originalmente no SPFW em 2017, algumas das peças voltam a ser produzidas, em edição limitada, e vendidas na loja da Oscar Freire e no próprio MASP.

 “A Osklen é a expressão do meu olhar sobre a nossa cultura e aquilo que me cerca. A arte nos inspira. E acredito que através da plataforma da moda podemos de alguma forma colaborar na aproximação da sociedade com as artes”, conclui Oskar Metsavaht.

Fundadora & Editora do Costanza Who. Jornalista e produtora de conteúdo sobre moda, beleza e comportamento.

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