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SPFW: moda, pra mim, é outra coisa

Impossível ter conta em qualquer rede social e não saber da morte do modelo Tales Cotta durante a última SPFW. Embora, admito, seja bem tentadora a ideia de viver tão alienada a ponto de não precisar ter acompanhado essa desumanidade acontecendo ao vivo. Mas é um tanto quanto estranho ter sido contemporânea de um fato que há de se tornar histórico no meio. “Lembra daquela edição que morreu um modelo?”, as pessoas vão dizer daqui 5, 10 anos. E, eu aposto, virá seguida por: “como era mesmo o nome dele?”.

Claro que a tragédia não tem absolutamente nada a ver comigo, mas achei um tanto quanto irônico que isso tenha acontecido às vésperas da reinauguração do Costanza Who, e que o primeiro texto programado para hoje fosse, justamente, uma discussão sobre a relevância do modelo atual do SPFW. Lógico que apaguei tudo e comecei do zero. Mas será que existe algo a ser dito?

Que o evento precisava se reinventar todo mundo já sabia. Desfiles ainda fazem sentido na era digital? Colocar jornalistas ou influenciadores na primeira fila? Alguém ainda liga pra moda? Agora, a pauta é (ou deveria ser) outra: onde foi que se perdeu a humanidade na moda? Quando passamos a desvalorizar tanto uma vida a ponto de, literalmente, passarmos por cima dela em prol de um evento, por mais “importante” que ele seja?



Não estive lá, mas acompanhei relatos quase ao vivo de colegas de profissão e a incredulidade era geral. A começar pela queda ainda sem diagnóstico de Tales, que nos primeiros segundos ainda acreditou-se que poderia fazer parte da performance. “De fora, a decisão de continuar [o desfile] soou como frieza para muitos. De dentro, a trilha pesada do desfile se confundia com a sirene da ambulância que ainda saia do evento rumo ao pronto-socorro, atrapalhando qualquer julgamento”, escreveu em seu blog o jornalista André do Val.

Dias depois do ocorrido, há um grande movimento de apontar de dedos, desculpas e racionalizações de todas as partes. “Não existe manual para lidar com uma situação tão trágica, tão inesperada, tão surreal como essa”, disse o organizador do SPFW, Paulo Borges. “Não fizeram mal nenhum”, comentou a mãe do Tales pelo instagram. “Se soubesse não teria desfilado. E sinto necessário tornar essa informação pública. Ficou muito estranho sentir alegria sem saber da dor que ocorria logo ali, do meu lado”, desabafou Flávia Aranha sobre apresentar sua coleção logo após a Ocksa.



Preciso ser honesta, ainda não sei muito bem o que pensar de tudo que eu vi e li nessa semana. Por um lado, parece ter ficado claro que não houve negligência (no sentido legal mesmo da palavra). É compreensível, portanto, querer honrar contratos, finalizar apresentações, e que se tenham tomado as melhores decisões com as informações que existiam naquele momento. Por outro, qual é o ponto de tudo isso? Para que serve a moda que a gente está criando? Por que alguém se dá ao trabalho de passar meses desenvolvendo roupas com ideias e conceitos por trás, se não para comunicar algo para o mundo e, assim, almejar mudá-lo?

Roupas são feitas para pessoas. De carne e osso. Alguém no final do processo, vai colocar aquilo sobre o corpo — e não existe relação mais próxima do que essa. Como é que passamos por cima de uma pessoa para vender uma roupa para outra? A conta não fecha, né.

Eu decidi trazer o Costanza Who de volta após passar algum tempo reexaminando meu relacionamento com a moda (que deixa a gente muito exausta às vezes), e chegar à conclusão que era possível produzir um conteúdo que fosse relevante e responsável. Que moda, pra mim, pode ser muito mais do que roupas e lançamentos. Não vou terminar esse texto dando boas vindas a quem está chegando aqui, porque me parece tão inadequado e cruel quanto dar sequência ao SPFW após uma morte. Só deixo registrado o desejo que, tanto eu quanto meus colegas de profissão, não nos esqueçamos dessa fatalidade e nem do nome de Tales Cotta.

Fundadora & Editora do Costanza Who. Jornalista e produtora de conteúdo sobre moda, beleza e comportamento.

Comentários

  • 9 de julho de 2019
    responder
    thiago

    Achei fantástico o post, com excelentes colocações e um questionamento muito importante: Até quando o Fashion Profit vai valer mais que uma vida? é interessante ver que em meio tantos avanços tecnológicos a moda ainda pedala em evoluir em seu tato social. lendo seu post até me inspirei a escrever um post para meu blog falado sobre a relação dos modelos com o mundo da moda.

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