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As lutas de Zuzu Angel

Zuzu Angel lutou contra a barbárie da ditadura militar do nosso país. Desde o desaparecimento de seu filho Stuart, comunista militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), protestou sempre que podia, com as armas que dispunha. Buscou ajuda de amigos, artistas e políticos. Morreu vítima da violência que tanto lutou contra. Seu desejo de justiça, por si só, fez de Zuleika de Souza Netto, nome com o qual foi batizada, um exemplo de brasileira. Mas essa mineira, nascida em Curvelo em 1923, também usou outra arma a seu favor: a moda. Zuzu Angel / Exposição Ocupação Zuzu Certa vez ela afirmou: “Eu sou a moda brasileira!”. E não podemos negar que a moda nacional deve muito a ela. As criações da designer se baseavam nas particularidades do país, mas se afastavam de qualquer traço colonial. Diferente de outros grandes nomes da época, como Clodovil e Dener, que faziam peças artesanais e sob medida, ela levou identidade e qualidade para o prêt-a-porter.

Como era costume na época, começou a costurar cedo. Apaixonada pela cultura de Hollywood, rapidamente aprendeu inglês e começou a trabalhar como taquígrafa. Em 1943, casou-se com Norman Angel Jones. A família morou um tempo em Salvador até fixar residência no Rio de Janeiro. Lá, Zuzu se aproximou da primeira dama Sarah Kubitschek e ingressou na Obra das Pioneiras Sociais, grupo beneficente que produzia uniformes para crianças carentes. Aos poucos, seu talento para costura foi percebido e ela começou a “costurar para fora”. Como inicialmente sua especialidade eram as saias, logo seu apartamento ficou conhecido como “Zuzu Saias”.

Com o tempo e conforme ganhava confiança, ela passou a diversificar a produção. Neste momento entrou em cena Yvonne de Carlo, estrela de cinema norte americana. A atriz adorou o trabalho da designer e a indicou como parada obrigatória para todas as amigas que viessem ao Brasil. Em 1961 Zuzu e Norman se separaram; ela, então, mudou para Ipanema e abriu um ateliê – que funcionava na mesma casa onde vivia com os três filhos. Zuzu Angel / Exposição Ocupação Zuzu

Em direção ao reconhecimento internacional

Cinco anos depois fez seu primeiro desfile, no 2° Salão de Moda da Feira Brasileira do Atlântico. A apresentação foi um sucesso: uma matéria do Jornal do Brasil dizia que “Zuzu Angel é um nome que está se impondo no campo da moda carioca, com criações da alta custura cheias de bossa e requinte. (…) É justamente o que faltava por aqui, pois sempre as mulheres nesse ramo se limitavam a copiar os grandes costureiros internacionais, deixando os louros da profissão para os homens”. A partir daí, a carreira de Zuzu Angel deslanchou.

Uma forte característica do seu trabalho era a liberdade. Em 1967, produziu os figurinos do filme Todas as Mulheres do Mundo, protagonizado por Leila Diniz, que na época representava a ousadia e a libertação. No mesmo ano Zuzu desenvolveu a coleção Fashion and Freedom. Saias amplas, tecidos leves, barrigas de fora e estampas tropicais faziam parte da linha –  a estilista queria liberar a mulher do uso do sutiã.

Em 1968 Zuzu estreou nos EUA com um desfile na feira de San Antonio, no Texas. Naquele mesmo ano foi diplomada como mulher-destaque pelo Conselho Nacional de Mulheres, ao lado de Raquel de Queiroz e Bibi Ferreira. Esse foi também o ano do decreto do Ato Constitucional n°5. Naquela época, a estilista ainda não estava envolvida na luta contra a ditadura e chegou a ter entre suas clientes a mulher do general Costa e Silva. No anos seguinte, no auge de sua carreira, ela lançou uma coleção tipicamente brasileira, que trazia elementos das roupas das baianas, do casa Maria Bonita e Lampião e das rendeiras do Nordeste, para ser comercializada pela Bergdorf Goodman, batizada de Dateline Collection I, em alusão à linha que separa os hemisférios terrestres. Zuzu Angel / Exposição Ocupação Zuzu

1971 e a luta de Zuzu contra a ditadura militar

Mas o ano que realmente marcou a vida de Zuzu foi 1971, quando seu filho Stuart, que ingressou na luta armada contra os militares e já vivia na clandestinidade, desapareceu. Após esse momento, Zuzu passou a usar a moda como forma de expressão e protesto. Na Dateline Collection III, no lugar das estampas tropicais estavam pássaros engaiolados, tanques, quepes, balas de canhão, pombos da paz e anjos – esse últimos continuaram presentes em todas as suas criações seguintes. Na apresentação da coleção, a designer surgiu toda vestida de preto, com uma corrente de crucifixos na cintuara e um pingente de anjo no pescoço – o luto se tornaria seu figurino oficial.

Zuzu Angel jamais cessou sua luta. Anos depois do sequestro de seu filho, ela descobriu que ele havia sido levado para a base área do Galeão, onde sofreu todo tipo e tortura. Zuzu morreu em 14 de abril de 1976, em um suposto acidente na saída do Túnel Dois Irmãos, na estrada da Gávea. Uma carta descoberta vinte anos depois provou que ela se sentia ameaçada.“Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.” Apesar da morte prematura, seu legado para a moda perdura até os dias de hoje e não será esquecido no futuro. Na edição de 2001 do SPFW, o estilista Ronaldo Fraga, também mineiro, a homenageou com a coleção “Quem matou Zuzu Angel?”.

Ocupação Zuzu: seu legado em 2014

A exposição Ocupação Zuzu, em cartaz até o dia 11 de maio em São Paulo, traz elementos tanto da sua luta contra a ditadura, quanto da luta pelo reconhecimento da identidade da moda brasileira no exterior. Com curadoria da filha mais nova da estilista, Hildegard Angel, Valdy Lopes Jn e do Itaú Cultura, a mostra ocupa quatro andares do espaço, com vestidos e referências, cartas, documentos e jornais da época. Pelo menos 40 dos looks criados pela designer estão expostos – entre as peças, figuram quatro criações de Zuzu para noivas; nove trajes que ela usava em seu luto pela perda do filho; três exemplares usados por modelos americanas no famoso desfile de protesto que ela fez em Nova York, no começo dos anos 70, na casa do cônsul brasileiro na cidade; e dois exemplares da série pastoral. Zuzu Angel / Exposição Ocupação Zuzu Em sua busca por Stuart, Zuzu Angel enviou inúmeras cartas de denúncias a pessoas influentes, muitas das quais estão presentes na exposição (algumas originais, outras cópias).  A Ocupação Zuzu traz, ainda, material audiovisual de grande valor histórico, como trechos do desfile de protesto, realizado em Nova York, e objetos e fotografias de seu filho eliminado pelo regime, Stuart Angel Jones – muitos apresentados ao público pela primeira vez.

E como todo esse material foi reunido? A resposta vem de Hildegard Angel, filha da estilista: “Munida com as agendas telefônicas de mamãe, fui ligando para cada uma das clientes. Outras, atendendo convocação feita por mim em coluna do jornal, batiam mesmo à minha porta com as roupas nas mãos. Em Belo Horizonte os parentes guardaram as peças nas malas antigas. Quando alguém via algo dela em brechó, se não adquiria e me presenteava, telefonava correndo para avisar. Fotógrafos também doaram preciosos negativos. Todos, todos formaram fileiras nessa missão. Todos pareciam querer manifestar, através de suas doações, o apreço e a admiração, não apenas pela legitimidade da moda pioneira e ímpar, com brasilidade, de Zuzu Angel, mas por desejarem inscrever sua filiação solidária à falange de “angels” insurgentes contra o período de opressão que viveu o Brasil”.

Serviço da exposição #OcupaçãoZuzu

01.04 – 11.05
De terça-feira a sexta-feira, das 9h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
Onde: Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô

*Por Marina Gabai, em colaboração ao Costanza Who

 

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O que Dener Pamplona fez pela moda brasileira

Muito se fala sobre a identidade da moda brasileira: descontraída, colorida, sensual, despojada. Mas e o criador desse estilo, o primeiro a dar uma cara para a moda do nosso país? Dener Pamplona de Abreu começou cedo, em uma época em que estar na moda significava seguir a risca as tendências europeias, e com seu talento e ousadia destacou a personalidade das brasileiras em uma alta costura cheia de cores, alegria e elegância.

Dener Pamplona Dener nasceu na Ilha de Marajó, no dia 3 de agosto de 1937, em uma família rica. Já pequeno tinha personalidade forte e fazia o que queria. Ainda criança se mudou para o Rio de Janeiro, devido a problemas financeiros. Sua mãe trabalhava fora e ele não era um garoto de muitos amigos – e para passar o tempo, desenhava vestidos. Apesar disso, nunca havia pensado em transformar seu hobbie em trabalho, já que na época não existiam estilistas, apenas costureiros que copiavam a moda estrangeira. Aos treze anos foi descoberto dentro de uma lotação. Uma senhora, diretora da Casa Canadá, famosa butique da época, percebeu o talento daquele pequeno marajoara. Foi o início de uma carreira brilhante.

Desde o começo, o estilo de Dener chamou a atenção das mulheres da alta sociedade. Seu primeiro trabalho na boutique Casa Canadá foi um vestido para a esposa de um famoso político, Sarah Kubitschek. O estilista gostava de destacar a individualidade de cada mulher, valorizando seu corpo. Para ele, mais importante que estar na moda era ter personalidade. E mais importante que lançar tendências, era consagrá-las.

Dener Pamplona Com o tempo, seu trabalho ganhou notoriedade e ele foi trabalhar com Ruth Silveira, indicado pela amiga Danuza Leão. Aos 21,  abriu o próprio ateliê e passou a vestir as mulheres mais importantes da época, como a primeira dama Teresa Goulart. Além de suas criações, sua persil também se destacava: “…Eu faço o que quero, digo o que quero e sou popularíssimo em qualquer turma. Basta ser estrela mesmo, que todo mundo gosta de ver estrelas…”, escreve em sua biografia O Luxo (Ed. Cosac Naify).

Mas o sucesso não se devia apenas ao seu talento nato. “Muita gente vê o meu sucesso de hoje e pensa que conquistei tudo só com a minha frescura, que realmente é fora de série, ou porque eu tenho coragem de dizer as coisas. Tudo isso ajudou (…) mas não teria chegado se não fossem os estudos e o trabalho”, explica. Tamanho esforço fez com que sua fama ultrapassasse as fronteiras brasileiras e chegasse à Europa – Dener se tornou um dos grandes nomes da moda mundial, ganhou prêmios e inclusive foi chamado para substituir Christian Dior na direção da sua marca, porém não aceitou – afinal, ele fazia apenas o que queria.

Dener Pamplona Dener sabia usar seu talento, autenticidade, inteligência e acidez como ninguém, tanto na vida pessoal como na estética de suas criações. Sua moda tinha linhas elegantes, sempre com pontuais toques de irreverência. Ele vestia as brasileiras como ninguém.

O boom do prêt-à-porter e a desvalorização da alta costura no início dos anos 70, contribuíram para a decadência do estilista, que já estava tendo problemas com álcool. Dener morreu de cirrose aos 42 anos, mas deixou uma grande legado. Casou-se, teve filhos, fez amigos e inimigos (Clodovil era o maior deles!), chocou muita gente e, principalmente, criou uma identidade para a moda brasileira que perdura até os dias de hoje.

Update da editora: uma leitora apontou um fato importante que passou batido pela nossa redação. A verdade é que o Dener Pamplona nunca trabalhou na Canadá. Embora no seu livro biografia ele dedique dois capítulos inteiros ao assunto, Dener nunca trabalhou no ateliê. O fato nunca foi desmentido pela dona da Canadá porque essa afirmação não a prejudicava de nenhuma forma e decidiu deixar que ele se beneficiasse pela fama da marca.

*Por Marina Gabai, em colaboração ao Costanza Who

 

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A história da Renner: “a boa roupa, ponto a ponto”

Não entendeu o título? Pois esse foi o primeiro conceito empresarial divulgado das Lojas Renner ainda no começo do século XX, quando a marca era conhecida principalmente por seus trajes masculinos de alta qualidade. Hoje a segunda maior rede de lojas de departamentos de vestuário do Brasil, a Renner foi pioneira no país ao introduzir um modelo de gestão baseado no conceito do encantamento.

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Antônio Jacob Renner e a história da Renner

A loja de departamento nasceu em Porto Alegre (RS) nas mãos do descendente de alemães Antônio Jack Renner com o grupo A. J. Renner. O ano era 1912, e a empresa se resumia à uma indústria têxtil instalada no bairro de Navegantes. Na época, o grupo comercializava, entre outras coisas, capas de pura lã muito resistentes ao frio, chuva e vento característico da região – peça que em pouco tempo se tornou indispensável em Porto Alegre. É dessa época que vem o slogan “Renner, a boa roupa, ponto a ponto” – desde então, a qualidade era o diferencial.

O primeiro ponto de venda para o consumidor final, no entanto, só foi inaugurado em 1922 – a primeira Lojas Renner -, já com um mix mais amplo de produtos e como uma loja de departamentos. Mas é em 1965 que a marca ganha força própria e se separa do grupo A. J. Renner para fundar a Lojas Renner S.A. Apenas dois anos mais tarde ocorre a abertura do capital na Bolsa de Valores, marco importante para impulsionar as mudanças que estavam por vir e crescer dentro do estado do Rio Grande do Sul.

Anos 90: a década da Renner

Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal – estes foram os estados que receberam as primeiras unidades das Lojas Renner fora do Rio Grande do Sul na década de 90. A responsável foi a implementação de um processo de reestruturação baseado na filosofia do Encantamento, que dita os rumos da empresa até hoje. A ideia é que não basta satisfazer o cliente, mas sim superar as suas expectativas. Houve também uma mudança de foco: as Lojas Renner passariam a focar no público feminino; mais especificamente, na mulher moderna que trabalha. Em 1991, a rede somava 8 lojas. Até o final de 1998, no entanto, já eram 21 lojas espalhadas pelo Brasil. Renner Av. Paulista

Importante nessa nova fase das Lojas Renner, em 1996 a rede trouxe uma novidade pioneira e que ainda é adotada nos pontos de venda: o “encantômetro”, painel eletrônico localizado na saída de cada unidade que monitora a satisfação dos clientes, criando uma forma efetiva de controlar, entre outros, a qualidade do atendimento.

E foi ainda na década de 90 que a J. C. Penney Brazil Inc. (uma das maiores redes dos EUA) adquiriu o controle acionário da Lojas Renner S.A., trazendo alguns benefícios importantes para impulsionar a competitividade da marca, como o acesso a fornecedores internacionais e a consultoria na escolha de pontos comerciais.

Renner e os Estilos de Vida

Praticidade e identificação: esses eram os principais objetivos de uma mudança no desenvolvimento e na organização das coleções da Renner. O conceito de “Estilos de Vida”, como foi batizado pela própria empresa, levou à criação de pequenas marcas que refletem diferentes lifestyles, interesses e personalidades. Dessa forma, a empresa facilita a movimentação do cliente dentro de uma grande loja, que consegue se identificar com um conjunto de peças específico, e diminui o tempo de compra. Mais para frente, essas sub-marcas ganham inclusive nomes próprios – como a Just Be, Blue Steel, Rip Coast, Get Over e Request.

Renner

Já o ano de 2010 foi marcado pela entrada da rede de lojas no mundo dos e-commerces, com o lançamento de sua loja virtual. Presente em quase todos os estados do país (menos Roraima!), a Renner hoje ainda aposta na expansão especialmente pela internet – além do site, a marca possui uma presença forte nas redes sociais com mais de 4 milhões de curtidas no facebook e 155 mil seguidores no instagram.