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Expediente: desvendando os cargos da redação de uma revista de moda

Quando comecei minha faculdade de Jornalismo, já sabia que queria trabalhar com moda e vivia mergulhada nas revistas tentando absorver o máximo possível. Mas o que eu adorava mesmo era a tal página de expediente, com o nome de todo mundo da redação daquela publicação. Ou seja, eu sabia que queria ver o meu ali um dia mas, pelo menos pra mim, era super difícil entender a diferença entre todos aqueles cargos. Afinal, ninguém é obrigado a nascer sabendo o que faz um editor-chefe ou um produtor executivo.

Faz pouco mais de um ano que faço parte da redação da L’Officiel e vi meu nome num expediente pela primeira vez. Preciso admitir, ainda tem certas coisas que me confundem, até porque cada redação funciona de um jeito, mas achei que valia a pena compartilhar o que eu absorvi.

Expediente da redação de uma revista de moda / O Diabo Veste Prada

Cena icônica do filme O Diabo Veste Prada, que mostra a rotina (ficcional, mas bem realista) da assistente Andy Sachs numa revista de moda

Uma observação. Primeiro, é uma tendência mundial que as redações das revistas (não só de moda) fiquem cada vez mais enxutas, e com isso as funções de cada cargo acabam se misturando. Ou seja, um título não pode nem deve ser interpretado como algo inflexível, já que cada time tem uma dinâmica própria.

Desvendando o expediente de uma revista de moda

* Diretor de redação: ele está no topo da cadeia alimentar. É o responsável por toda a parte editorial da revista, sabe e tem o controle sobre tudo o que é publicado, além das demandas comerciais. Faz parte do job manter relacionamentos com todas as grandes marcas e seus estilistas.

* Editor-chefe: em geral, costuma ser o próximo na hierarquia de uma revista. É responsável por organizar todo o fluxo de entrega de textos/fotos em contato com a equipe de arte (mais abaixo), cobrar e manter prazos e se reporta diretamente ao diretor. Precisa, acima de tudo, ser muito organizado e um bom gestor.

* Editor de moda: numa revista do segmento, em geral as redações se dividem entre equipe de moda e de texto. Em geral ele estudou moda e tem a palavra final nas peças fotografadas em editoriais ou páginas de still (quando a peça não está numa modelo). Enquanto um editor-chefe ou até mesmo o diretor de redação não precisam ter uma formação específica no assunto, é função do editor de moda ter esse olho apurado.

* Stylist: pode ser freelancer (contratado para jobs específicos) ou fazer parte da equipe fixa. Ele trabalha em conjunto com o editor de moda, é sua função pegar a visão do que ele imaginou para aquela página e fazer isso virar realidade, pesquisar quais itens específicos ele gostaria de fotografar e combinar os looks. Num mundo ideal, ele ainda teria a assistência de um produtor de moda.

* Produtor de moda: a pessoa que vai de marca em marca escolher e buscar cada uma das peças que serão fotografadas. Ou seja, é um trabalho feito essencialmente na rua. É claro que, uma vez reunidos todos os itens, ele também separa, cataloga e trabalha junto com o stylist numa pré-edição do que vai ser fotografado, e depois nas devoluções de cada uma dessas peças. Pode ou não ter um assistente.

* Produtor executivo: imagine coordenar modelos, fotógrafo, locação, catering, maquiagem, cabelo e transporte para cada shooting feito pela revista. Esse é o trabalho do produtor executivo, garantir que tudo saia conforme o planejado e ter um plano B na manga para emergências.

* Editor de beleza/comportamento/cultura: são os editores de cada um dos outros assuntos, além de moda, que a revista comporta. Costumam ser jornalistas, eles assinam matérias, coordenam e editam textos escritos por terceiros (freelancers ou repórteres) e outros projetos. Cada um tem certa autonomia sobre sua seção, e se reportam diretamente ao editor-chefe.

* Repórter: dentro de cada uma dessas áreas, em geral existe pelo menos um repórter. São profissionais com formação em texto, cuja função principal é colocar a mão na massa e escrever bastante mesmo.

* Diretor de arte: esse é outro que está lá no topo do expediente, embora esteja quase no final da minha lista. É que o trabalho dele é paralelo ao do resto da equipe: ele é o responsável pela diagramação e pela parte visual da revista. Coordena sua própria equipe de design e tratamento de imagem.

Ufa! Parece muita coisa, mas no final da conta o que importa é entender que está todo mundo ali empenhado para colocar na banca um produto interessante e completo. Parece fácil, mas tem muito trabalho duro embutido em cada edição. Espero que tenha sido o mais clara possível, mas se ficou alguma dúvida vale perguntar nos comentários!

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FAQ: sobre o jornalismo de moda

Para a minha surpresa, o jornalismo de moda é sempre um tema muito pesquisado aqui no blog. Acho que isso acontece principalmente porque na internet tem pouquíssima informação sobre a profissão, e é fato que a indústria da moda tem gerado cada vez mais interesse.

Justamente por isso, é também um dos assuntos que eu mais recebo dúvidas por e-mail. E assim eu resolvi vim falar mais um pouquinho disso por aqui na minha coluna em primeira pessoa – que eu carinhosamente apelidei de FAQ! Admito que ainda acho engraçado ver tanta gente vindo ME pedir conselhos, quando eu ainda me lembro (muito bem por sinal) de estar no outro lado dessa equação. Mas vamos lá!

jornalismo-de-moda

A famosa Andy Sachs, no inesquecível O Diabo Veste Prada. Há quem não ame o filme?!

Como é o mercado de jornalismo de moda? Ganha bem ou mal? Tá muito difícil conseguir emprego?

Se tivesse que fazer uma estatística, essas seriam as perguntas que eu mais ouço, sem sombra de dúvida! Minha visão: o mercado de jornalismo de moda é tão competitivo como qualquer outro hoje em dia, nem mais nem menos. O que não tem espaço mesmo é pra gente despreparada, desmotivada, preguiçosa e irresponsável – e isso em qualquer área. Agora, pra quem não tem medo de botar a mão na massa, eu ouso dizer que tem vaga sim.

Recentemente, vi a minha editora da L’Officiel demorar várias semanas até encontrar uma estagiária que ela gostasse de verdade para trabalhar com ela no Estadão. O que mais aparecia é gente que não entendia nada do assunto, mas também não parecia se mexer para mudar isso, sabe? Ninguém é obrigado a saber tudo sobre moda, especialmente no começo da carreira, mas um pouco de direcionamento é essencial. É formado numa área totalmente distinta? Vai fazer um curso sobre o assunto, se ofereça para cuidar das redes sociais da marca super nova daquela sua amiga que ainda não pode pagar alguém para fazer isso, crie um blog… O céu é o limite!

Quanto a salários, a situação é o seguinte: para trabalhar com qualquer tipo de jornalismo, não pode ser muito apegado a dinheiro, não! Brincadeiras a parte, não é uma área conhecida por ter salários muito altos, e da moda isso também é verdade. Se prepare para fazer estágios que mal cobrem seus custos, ser efetivado e ver sua situação financeira aumentar só um pouquinho… Não é pra todo mundo, fato.

Para trabalhar com jornalismo de moda precisa ter blog?

Não, gente! Ninguém precisa fazer nada que não quer, óbvio. Mas olha, se o seu blog for bem feito, ele pode se tornar um ótimo portfólio do seu trabalho. Minha primeira oportunidade de trabalho de verdade (fora estágio) aconteceu justamente com um contato que eu fiz por causa do blog! Ou seja, no fundo, foi ele quem me abriu essa porta, e pode fazer o mesmo por você.

Qual faculdade eu devo fazer?

Eu já falei um pouquinho antes sobre aquela velha dúvida entre cursar moda ou jornalismo. Mas muita gente me pergunta também quais são as melhores faculdades. Para começar, isso é muito pessoal, porque depende de onde você mora e para onde tem condições de se deslocar ou não. Uma coisa é fato: São Paulo e Rio de Janeiro concentram as maiores oportunidades de trabalho na área, e não é má ideia já cursar sua graduação por lá. Mas isso não é regra! Outros estados do país também têm ótimos cursos. Aproveitando, um momentinho de autopropaganda: para tentar ajudar nessa questão específica, estou montando um e-book que deve sair no comecinho do segundo semestre falando justamente dos principais cursos de moda do país.

Comunicação de moda: os diversos campos de atuação

Um último tópico importante para ser abordado é que o jornalismo de moda está dentro de algo muito mais amplo, que eu estou chamando aqui de “Comunicação de moda”. Ou seja: ok, você descobriu que quer trabalhar com moda e gosta de ler, escrever e se comunicar. Mas já pensou que não necessariamente uma redação tradicional vá te fazer feliz? Com formação em jornalismo ou moda dá pra trabalhar com assessoria de imprensa, marketing, produção de conteúdo para marcas, para redes sociais…

Em tempo: lá no comecinho do blog, ainda em 2013, eu entrevistei a Marina Domingues, na época repórter da revista Elle. Os fatos mais atuais já estão super desatualizados (por onde será que ela anda?!), mas vale pra conhecer mais sobre a trajetória e como era o dia-a-dia dela por lá.

 

A redação do Chic

Como é fácil deduzir, Chic é o site que foi criado a partir do livro homônimo da Glória Kalil, lançado em 1996 e que é best-seller da consultora de moda até hoje. Como explica André do Val, editor-executivo do site, “foi dessa publicação que a gente tirou a ideia, que é tratar a moda com um apelo popular, desvendado tendência. Sem aquela coisa do pedestal e das grandes marcas”. A ideia é boa, né?

Redação do Chic

Mas, diferente do que muita gente imagina, o site não é atualizado ou editado diretamente pela Glória Kalil. “A participação dela é muito específica: a gente tem uma reunião de pauta sagrada uma vez por semana, de onde saem todas as ideias, e ela sempre aprova as linhas gerais do site. A presença da Glória no escritório depende muito de agenda – se ela estiver em São Paulo, vem todo dia, mas fica muito tempo fora viajando.” Embora esse distanciamento esteja claro em vários lugares do portal, as pessoas ainda confundem muito a participação da Glória no processo. “Quando a gente responde leitores por e-mail ou nas redes sociais, eles acham que é a própria sentada ali, falando com eles. Sempre terminam com um ‘Obrigado, Glorinha!’.”

Redação do Chic

ANDRÉ DO VAL, O NOME POR TRÁS DO CHIC

Hoje editor-executivo e responsável tanto pelo comercial quanto pelo conteúdo do Chic, André do Val esteve presente desde o começo do site. E o editor-sênior, Eduardo Viveiros, também. “Isso foi entre 1999 e 2000 – a gente ajudou a montar o Chic mesmo, até a pensar nas seções. Ele foi idealizado como uma revista e, aos poucos, fomos desenvolvendo essa linguagem de internet.” Depois de 3 anos trabalhando com o site, André foi morar no exterior e só voltou em 2010, quando assumiu sua posição atual com o objetivo de repensar a parte de rede social e comercial no conteúdo do Chic. Entre seus planos para o futuro, inclui uma pós graduação e eventualmente dar aulas online sobre moda. “Tenho feito muito esses cursos do Coursera, acho bem interessantes!”

COMO FUNCIONA UM SITE COMO O CHIC?

“A gente vira a home inteira todos os dias. Ou seja, são pelo menos dez matérias ou arquivos diariamente, é bastante coisa. Na verdade estamos tentando aumentar, porque às vezes batemos 20 matérias.” No total, cerca de 10 pessoas, incluindo o próprio André e a Glória Kalil, são necessários para manter o site atualizado e no ar!

Redação do Chic

A principal seção do Chic é a Como Usar, que traz aquele conceito dos biotipos que a Glória ressalta no seu livro. “Todo o resto é montado analisando o que funciona melhor. Outras seções bem procuradas são Plus-Size e Casamento – que é mais para o lado da adequação e de etiqueta.”

Outro ponto interessante é que dificilmente você encontra no Chic muitas matérias sobre os desfiles internacionais, por exemplo. “Ao invés de cobrir Paris, a gente prefere falar de Salão de Negócios”, explica o editor André do Val. “Minas já virou um destino fixo. Agora a gente está tentando mapear para dentro e ver o que pode fazer, porque a Glória Kalil tem uma postura muito profissional desse mercado de moda, ela não é muito deslumbrada e não quer que fique uma coisa muito focado em festas, coquetéis. Quer que seja mais voltado para o que a indústria está fazendo.”

Redação do Chic

PROJETOS OFFLINE DO CHIC

E como não dá pra ficar acomodado no que já funciona, o Chic tem se mexido para trabalhar com outros projetos que saiam um pouco do site. “Um dos mais recentes foi um catálogo que a gente faz de treinamento para o varejo ainda nessa coisa de desvendar a moda para quem precisa trabalhar com isso. Também trabalhamos com o Shopping do Bom Retiro, fizemos um conteúdo personalizado para eles com as marcas de lá. Separamos em tendências, fotografamos… É um trabalho de treinamento mesmo.”

O PERFIL DO REPÓRTER DO CHIC

Tem curiosidade para saber o que um portal como o Chic procura na hora de selecionar novos repórteres? O próprio André do Val resume: “precisa ter perfil de internet, tem que saber um pouco de tudo.” Isso quer dizer que habilidades como edição de imagem e fotografia são (e muito!) valorizadas. “Não precisa ser fotógrafo, mas precisa saber tirar uma foto ok. Está num evento e quer fotografar de alguém? Põe a pessoa na parede, recua, faz de corpo inteiro e acerta.”

Redação do Chic

Em segundo lugar, o texto. “Tem que ter um texto bom e ter um mínimo de senso jornalístico para começar a escrever título e hierarquia de notícia, com o lead. Saber dividir a informação sem enrolar; porque a moda tem muito isso, a pessoa vai enrolando e quando você vê não falou nada.”

O que até pouco tempo ainda era considerado um plus, hoje em dia já está virando requisito – sim, o SEO está pertinho de entrar pra segunda categoria. “Ajudo a treinar, mas estou começando a exigir um pouco mais de SEO, porque faz parte de quem escreve em internet saber como nomear as fotos, como organizar o título”.

 

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