As garotas de Alceu Penna

Alceu Penna teve um importante papel na construção da identidade da moda brasileira da forma como a conhecemos hoje. Antes dele começar a ilustrar as colunas na revista O Cruzeiro, as publicações do país não se preocupavam com a representatividade da moda nacional, trazendo apenas o que se via lá fora para suas páginas. No entanto, através de seus desenhos Alceu pode adaptar o modo de vestir das estrangeiras para a realidade do Brasil, começando assim a traçar as primeiras características que viriam a ser identificadas como parte da identidade brasileira.

Considerado um artista gráfico versátil, Alceu Penna atuou em diversas áreas, desde criação de capas para revistas, elaboração de cenários e figurinos para cinema, teatro e TV, até desenhos para o público infantil e fantasias para escolas de samba. Mas seria através da coluna “Garotas”, veiculada durante 28 anos na revista O Cruzeiro, que o ilustrador ganharia visibilidade e reconhecimento.

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Publicação da coluna “Garotas” na revista O Cruzeiro, a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX.

Inspiradas pelas Gibson Girls, as Pin-ups do The Saturday Evening Post, as figuras femininas de “Garotas” expressavam a vida moderna no país. A coluna, que trazia mocinhas vestidas com as últimas tendências conversando sobre os assuntos mais variados, ditou modas e costumes, influenciando diretamente o comportamento da geração de homens e mulheres da época. Através de suas garotas, Alceu Penna disseminou novos hábitos para as moças da época, que agora eram mais modernas e urbanas. Além disso, a coluna também refletia ideais ligados ao contexto político-social vivido no Brasil.

Nesse período, ainda não se colocava em questão uma moda nacional, uma vez que a indústria têxtil do país era gerenciada por empresários mais preocupados em garantir sua sobrevivências do que na busca por uma moda com expressão nacional. As elites consumidoras de moda ainda consideravam sinônimo de elegância vestir-se nos moldes da Alta Costura francesa. Assim, as revistas brasileiras se conservavam a apenas apresentar e descrever as novidades da moda internacional.

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As garotas de Alceu eram ousadas e destoavam do comportamento conservador da época, incentivando o empoderamento das mulheres.

A partir da década de 30, com a viagem de Alceu Penna para Estados Unidos, seu olhar se afina para as peculiaridades de sua terra natal, e isso reflete em sua coluna. Antes da viagem, a coluna intitulada “Álbum de fantasias de O Cruzeiro” trazia ideias de fantasias inspiradas nos trajes típicos de países estrangeiros. Após seu retorno, as fantasias inspiradas no Carnaval veneziano dividem espaço com elementos de nossa cultura, como o malandro e a baiana. Mas esse movimento não acontece apenas nas fantasias: aos poucos, o ilustrador começa a apresentar uma moda com características nacionais. Em um primeiro momento, adaptada ao clima tropical, e posteriormente à matéria prima têxtil nacional, como o algodão.

Alceu Penna também causa mudanças no comportamento da mulher brasileira. Apesar de O Cruzeiro ser uma revista de variedades voltada para as famílias conservadoras, a coluna “Garotas” não se enquadrava no padrão de comportamento feminino da época. Eram moças de família, que sonhavam com o casamento, mantinham boa aparência e respeitavam os mais velhos, mas às vezes escapavam de certos padrões e brincavam com a imagem do papel da mulher. Elas tomavam a inciativa na conquista, usavam roupas mais curtas e iam a bailes desacompanhadas. As “Garotas” eram confiantes e irresistíveis, e dessa forma contribuíram para a emancipação de alguns comportamentos das moças do período.

Naquele momento, o Rio de Janeiro era visto como centro cultural e modelo de progresso diante do restante do país. Assim, as mocinhas criadas por Alceu Penna eram retratadas em cenários que faziam parte do cotidiano da elite da cidade junto com seus modismos e trejeitos. Como O Cruzeiro era uma revista de alcance nacional, o estilo de vida carioca se espalhou para todo o país, tornando-se objdesejo de todos. A praia era um popular ponto de encontro da juventude da época, e não seria diferente para as  “Garotas”, que eram frequentemente ilustradas no cenário. Com a exposição do corpo ao sol, a pele bronzeada e o corpo esbelto se tornaram o ideal de beleza vigente do período, associado ao Rio de Janeiro.

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Referência de estilo, as garotas de Alceu vendiam o lifestyle brasileiro, muito associado ao Rio de Janeiro.

As “Garotas” de Alceu ganharam tanto de destaque que começaram a sair do papel para se tornarem de carne e osso, uma vez que suas atitudes eram copiadas pelas jovens da época. Não só isso: os figurinos criados para suas bonecas também eram levados para as costureiras a fim de serem reproduzidos. As moças desejavam ser uma das tais “Garotas” e os rapazes sonhavam em se casar com uma delas. Em conjunto com sua colaboração para a moda brasileira, o ilustrador abriu espaço para uma nova figura feminina emergir.

Aprofunde a sua pesquisa:

Site: www.alceupenna.com.br

Livro: Alceu Penna e as Garotas do Brasil, por Gonçalo Junior (Editora Manole)

Livro: Vamos, garotas! Alceu Penna, por Gabriela Penna (Editora Annablume)

*Por Gabriela Cabral, em colaboração ao Costanza Who

 

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2 comentários em As garotas de Alceu Penna

  1. Mariana comentou:

    O trabalho do Alceu é demais!

  2. leilah balestrero menezes comentou:

    Eu era conhecida como A garota do Alceu no meu bairro!
    Copiava os modelos, os cabelos, tudo!

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