Vida de Modelo: nem tudo é o que parece

Navegando pelas redes sociais, parei pra pensar naquela famosa ideia de que nem tudo é o que parece. A velha sensação de encontrar pela rua um conhecido que você não vê há anos ao vivo (mas acompanha pela internet): nossa, eu sempre vejo as fotos dele, me parecia tão feliz… Pois é, desde que viajei eu recebo muitos recados inbox e e-mails de amigos equerendo saber mais sobre como estão as coisas, perguntando se está tudo certo, e outros sem noção pedindo detalhes que não lhes cabe saber. Quem fala comigo sabe de muito mais coisa do que quem só curte as minhas fotos e controla meus check-ins. Parei pra olhar meu feed há alguns minutos e tentei me distanciar um pouco pra analisar cada foto. De longe, parece que eu estou vivendo a vida boa, de férias por esse mundão e comendo caviar.

Já começo falando: não é bem assim que a banda toca. A vida de modelo tem me proporcionado experiências que jamais  teria imaginado, me dá a chance de conhecer pessoas que eu só via na tv, me leva pra restaurantes que não cabiam no meu bolso e a destinos que eu só conhecia pelo site da CVC. Pois bem, essa semana já comi caviar, tomei um bom vinho em plena segunda-feira, fui correr em volta de um castelo e trabalhei, trabalhei bastante. Mas isso não quer dizer, nem de longe, que eu tô rasgando dinheiro, que eu não gosto mais de cerveja, não sinto saudades das festas juninas do condomínio ou do bolinho de chuva da minha avó. Aliás, hoje estou aqui, ouvindo a chuva lá fora e imaginando o fogão a lenha quentinho da minha velhinha lá na roça de Gonçalves, Minas Gerais.

Posso falar que me considero um camaleão – às vezes fico até assustada com a minha capacidade de adaptação, em todos os sentidos. Durante esses 7 meses já fui gata borralheira e princesa, vivendo de acordo com a direção que o vento sopra. Já vi gente perdendo 3 milhões de libras (12 milhões de reais) sorrindo, e gente ganhando 50 centavos (2 reais) chorando. Já desfilei pelas festas de Mônaco com meu vestido mais caro e, ontem mesmo, comprei uma calça linda na feirinha por 5 euros. Já achei chata muita festa de bacana e já morri de dar risada no meio da praça tomando suco.

vida-de-modelo O que eu quero dizer com isso? A gente passa momentos felizes quando está ao lado de gente agradável, em um ambiente saudável. Dizem por aí que “é mais fácil sofrer em Paris” e, de certa forma, até parece que é sim, mas qualquer lugar é lugar quando se tem as companhias certas. Eu já disse aqui que dei sorte, muita sorte. Estou rodeada de gente boa, do bem, que me faz bem. Vai com um mala andar às margens do Rio Senna pra você ver! Com a pessoa errada, passear em Paris pode ser tão interessante como caminhar às margens do Tietê. Daí, mais uma conclusão: aprenda a ser independente e se arrisque a viajar e passear sozinho de vez em quando; fiz esse teste indo pra Veneza e foi uma experiência única perceber as minhas vontades e obedecer meus instintos.

Agora vamos às revelações. Pra quem não sabe, cheguei em Milão tomando 3 remédios: depressão, síndrome do pânico e insônia, esse era o meu quadro psiquiátrico no começo do ano. Meu apelido carinhoso na minha casa em Milão era “a louca do Rivotril”, porque eu começava a tremer e perdia a noção do tempo quando não tomava o sublingual. Pois-é. Saí do Brasil escalando uma montanha que me separava de um tal fundo do poço de onde eu não conseguia sair nem com tarja preta. E fui vivendo, chorando menos, ouvindo mais, abraçando mais, sorrindo mais, dormindo mais e acordando com menos artifícios. Cada menina que morou comigo no começo sabe o que é segurar na mão de alguém, porque elas seguraram as minhas e isso foi o que me permitiu sorrir, até nos dias em que eu chorei.

A minha alegria tão exacerbada não é à toa. Acho que só posso sentir esse êxtase todo, nesse nível, porque, um mês antes de viajar, estava deitada no chão, chorando e pensando: o que vai ser da minha vida? O que eu quero daqui pra frente? Que vida é essa que eu estou deixando passar?. As coisas ficaram mais leves quando comecei a viver, desacelerar, me permitir deslizes, curtir o ócio… Quando olhei pro espelho e disse, em voz alta “A sua vida vai mudar a partir de agora. Tem que mudar.” No maior clima clichê , auto-ajuda, chutei todos os pensamentos ruins e comecei a me desafiar dia após dia. Acho que nunca tomei uma decisão com tanta propriedade. Foi um momento sério entre a Mariana destruída que se arrastava por aí e a Mariana animada, divertida e apaixonada que estava adormecida. Tomei algumas decisões muito importantes baseadas em um único pensamento: “o que é melhor pra mim AGORA?”.

Naquele momento específico eu precisava agir, mudar. Na verdade acho que pouco importava o que ou como eu faria, eu só queria fazer tudo diferente. Comecei escovando os dentes com a mão esquerda, misturando xadrez com floral, até que optei por tomar uma garrafa de vinho tinto sozinha, no meio da tarde, enquanto eu gritava um monólogo improvisado, deitada no chão da sala do apartamento onde eu morava, em São Paulo. Vi no espelho uma cara de bicho, um corpo de bicho e experimentei pensar igual gente. Pintei o rosto pra ir à feira, botei uma máscara pra enfrentar o mundo lá fora e ganhei um saco de frutas – interpretei aquilo como um sinal de que cada detalhe podia fazer a diferença. Pedi ajuda, não me ouviram, gritei mais alto, não resolveu, sentei na janela do prédio e pensei: “que merda é essa, Mariana?”. Aí eu aprendi que a gente tem que bater na porta certa quando o coração pede, simples assim. Eu chamo de anjos aqueles que seguraram a minha mão, minha cabeça e pernas, literalmente. E de “mamis” aquela pessoa maravilhosa que, desde o começo disse: “Filha, o que você quer fazer AGORA? O que vai te fazer feliz HOJE? Faça suas escolhas e, se alguma coisa der errado, muda de novo. Eu vou estar sempre aqui.” Ai, mães! Seres divinos e iluminados que fazem a vida parecer maravilhosa com um abraço.

Desculpem pelo desabafo e todo esse melodrama, mas acho que eu precisava esclarecer que isso tudo é resultado de um sopro que recebi de Deus depois de umas palmadinhas da vida. AGORA vai lá, abraça sua mãe (ou reza por ela), escova os dentes com a mão oposta e começa o dia cantando a sua música preferida!

Não entendeu? Vida de Modelo é o nome da coluna da Mariana Yamamoto, que deixou sua vida em São Paulo e embarcou em março de 2014 para Milão – de contrato assinado com a Ford, é claro! E a profissional faz desse espaço seu diário nem-tão-pessoal-assim.

*Por Mariana Yamamoto, em colaboração ao Costanza Who

 

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