Vida de Modelo: 5 coisas que aprendi em Milão

Hello pessoal! Depois de um período considerável de sumiço, estou de volta. Motivo do meu desaparecimento: a Marina quer ser mil pessoas ao mesmo tempo e eu também. Mas a gente já acertou as agendas e aqui estou, mais uma vez, para contar sobre as minhas andanças. Em primeiro lugar, não estou mais em Milão. Minha temporada por lá acabou e a viagem continua em outro endereço: Londres! Pois é, acho que Deus reservou um tempinho dele pra mim nos últimos meses e está se encarregando de me guiar por lugares ma-ra-vi-lho-sos! Mas antes de contar sobre as minhas peripécias britânicas, trouxe cinco lições que aprendi na minha estadia na Itália.

1. A distância intensifica os sentimentos.

Imagine ter três meses para criar um círculo de amizades, encontrar pessoas dignas de confiança, identificar as melhores festas, descobrir onde vendem o melhor sorvete italiano e, eventualmente, se apaixonar por alguém. Se tem gente que demora anos pra se adaptar a um novo ambiente, como eu ia fazer isso em 3 meses? O fato é que, quando se está fora de casa e com pouco tempo para entender a lógica de um espaço desconhecido, tudo acontece em velocidade máxima. Claro que ser comunicativa (ao extremo, as vezes) e estar com a mente 100% aberta para o novo já me fizeram avançar algumas casas nessa corrida contra o tempo. Agora, tomando certa distância dos acontecimentos e analisando os laços que eu criei, chego à conclusão de que a capacidade do ser humano de criar uma nova comunidade ao seu redor é fascinante. Sem a menor cerimônia posso falar que fiz amizades verdadeiras em Milão e, obviamente, conheci pessoas descartáveis. Uma espécie de seleção natural instantânea tomou conta de mim porque, afinal, não tinha tempo a perder. Com esses novos amigos, criei uma família longe de casa e isso me ajudou muito a me sentir segura, evoluir no meu trabalho e a aguentar a saudade daqueles que ficaram no Brasil.

2. Esse mundo é minúsculo.

Se a lógica do “mundo ovo” valia para São Paulo e suas inúmeras coincidências geográficas, para a minha surpresa, em Milão o mundo ficou menor ainda – como um ovo de codorna. Comparada com a metrópole brasileira, a cidade da moda é muito pequena e, de um jeito ou de outro, todo mundo se cruza. Isso pode ser ótimo em algumas situações e péssimo em outras. Quer dizer que você sempre vai encontrar aquelas pessoas que queria e, em algum momento, vai dar de cara com quem não quer ver nem pintado de ouro. Quando transportamos essa ideia para o mundo da moda então, a esfera fica cada vez menor: os fotógrafos e as agências se conhecem, as modelos se esbarram pela estrada afora e, no final, tudo acaba em pizza, massa e sorvete! É extremamente importante lembrar de NUNCA fazer comentários maldosos na sua língua nativa. Você nunca vai imaginar que o dono do restaurante vai sempre para São Paulo, tem uma casa em Floripa e amigos no Rio de Janeiro. Cuidado! Rs

Vida de Modelo

3. O que não mata engorda.

Alguém se lembra dos primeiros posts por aqui? Eu toda saudável dizendo que nem imaginava o gosto do brioche e não tinha provado nem uma pizza italiana? Pois é meus amores,  esse dia chega para qualquer ser humano em sã consciência que vai visitar a Itália. Eu admito que era uma pessoa melhor (ou pelo menos mais magra) enquanto ficava só na salada e nos biscoitinhos de arroz. Quando você se depara com a oportunidade de jantar em alguns dos melhores restaurantes do mundo, algo acontece de errado no processo de sinapses do seu cérebro que faz com que ele defina que você tem que comer tudo loucamente como se o mundo fosse acabar amanhã…Pps! Resultado: no final da minha viagem eu somei belos 4kg de gordura. Na minha profissão, isso significa morte súbita! Assim que acabou o contrato, me obriguei a tirar uma semana de férias para correr atrás do prejuízo e reeducar meu organismo. Com a mesma gula que eu comi tudo o que via pela frente, me concentrei e eliminei os 4 sacos de carbo que estavam presos nas minhas células. Depois de muito exercício e uma dieta com restrição de álcool e carboidratos simples voltei pro shape de modelo que nunca deveria ter perdido. Em Milão aprendi que a minha profissão pede disciplina e eu tenho que manter o foco! Mas quero deixar claro que não me arrependo de nada que ingeri. Comi coisas que talvez eu nunca mais tenha a oportunidade de comer e isso pra mim é experiência e cultura. Mas confesso que a minha disposição e o meu desempenho nas fotos é outro com uns quilinhos a menos.

4. Respirar.

Pois é, Milão me ensinou a fazer uma das coisas mais básicas e belas da vida: respirar. Não estou falando aqui do simples ato de inspirar e expirar. Falo da calma, da paciência, de caminhar com um propósito e as vezes sem nenhum. Milão me ensinou que é preciso sentar no meio do caminho mesmo quando se está atrasada pra deixar a cabeça organizar as ideias. Uma das coisas que mais me incomodam na vida é saber que muitas vezes a gente anda, corre, trabalha, estuda, faz e acontece sem saber o porquê. Um dia, em uma aula de teatro em São Paulo, meu professor disse: “olhem lá fora, pela janela. O que vocês vêem? Um monte de gente apressada tentando chegar em algum lugar. Porque vocês estão aqui, dentro dessa sala, aprendendo a caminhar e respirar?”. Eu não aprendi a caminhar nem a respirar naquelas aulas – eu estava no meio do caminho, dentro daquela sala mas com o desespero das pessoas lá de fora. Agora a minha ansiedade passou e eu amo ocupar o meu tempo respirando e caminhando com o corpo em equilíbrio. Eu encontrei tanta riqueza no ócio… Durante a minha vida toda eu atropelei etapas com uma sede absoluta de chegar em outras. Nessa corrida maluca deixei tudo pela metade e me perdi completamente. E foi justamente nos momentos de confusão mais intensos que eu fui capaz de tomar grandes decisões, porque fui obrigada a respirar, pensar, ou simplesmente seguir meu coração…

5. O processo é MUITO mais importante do que o resultado.

Mais uma vez vou falar sobre as minhas aulas de teatro, minha grande paixão. Durante 3 anos de curso profissionalizante eu ouvi muito a frase “Se preocupem mais com o processo do que com o resultado”. Sabe aquela fórmula de matemática que você sempre usou, sempre deu certo mas nunca fez sentido nenhum pra você? É basicamente disso que eu estou falando. Minha viagem ainda não acabou, eu não vi todas as fotos que eu tirei, não recebi feedback dos desfiles quefiz, não sei com quanto dinheiro vou terminar essa brincadeira e nem imagino o que será do meu dia de amanhã. No entanto, até agora eu: conheci 4 países, aprendi a falar italiano, fiz amigos dos mais diversos países, fui convidada para passar um tempo na casa de cada um desses amigos, fiz carinho em uma lhama (SIM!), dancei na chuva, assisti o GP de F1 quase encostada na pista, fiquei muito bêbada e tive a maior amnésia do mundo(e passei dia seguinte metade rindo metade chorando), conversei com um velhinho sobre a qualidade de vida na Suíça, ouvi de um senhor que eu sou uma jovem muito elegante e simpática, ouvi de uma jovem que eu sou uma magrela horrorosa, ouvi de uma senhora que a minha mãe merecia um presente especial por ter me educado tão bem (nesse dia eu chorei). Muitas outras coisas maravilhosas e outras nem tanto. Mas o processo, o caminho para sei lá onde eu estou indo, está me fazendo muito bem. Me faz feliz. O trem está passando e eu estou por aí, descendo e subindo dos vagões mas carregando comigo cada vez mais uma bagagem mais rica!

Não entendeu? Vida de Modelo é o nome da coluna da Mariana Yamamoto, que deixou sua vida em São Paulo e embarcou em março de 2014 para Milão – de contrato assinado com a Ford, é claro! E a profissional faz desse espaço seu diário nem-tão-pessoal-assim.

*Por Mariana Yamamoto, em colaboração ao Costanza Who

 

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