Nada mais gostoso do que exercitar nosso lado vouyeur de vez em quando. E quer programa melhor do que conhecer os bastidores de uma marca de moda feminina que é referência dentro do mercado nacional? Nessa semana, visitei a confecção da Iódice, que divide o espaço com a marca-irmã Iódice Denim. O espaço por si só transmite toda a essência da grife: salas amplas e inteiras cercadas por vidros deixam o ambiente leve e agradável. Assim como as roupas da marca, o prédio matriz da Iódice possui um design surpreendente.

Atelie da Iodice

Poucos sabe, mas a Iódice surgiu em 1987 (!) como uma produção de malharia, passando alguns anos depois para o jeanswear. Numa época em que a própria moda brasileira estava se consolidando, a história da Iódice se confunde com a da moda nacional. A marca esteve presente, por exemplo, na primeira edição do Morumbi Fashion (que mais tarde daria lugar ao São Paulo Fashion Week) em 1996. Hoje, a Iódice está presente em mais de 500 multimarcas e conta com 20 lojas em território nacional. Valdemar Iódice, estilista e fundador da grife que carrega seu sobrenome, divide o segredo do seu sucesso. “A Iódice é uma empresa de 25 anos que tem que se renovar. Mas sempre em cima do mesmo público, quer dizer, eu não mudo o estilo de roupa que eu faço. O que eu vou renovando é no sentido de deixar uma coleção, não vou dizer mais jovem, mas uma coleção que tenha estampa, recorte, detalhes, mais colorida, menos colorida. Eu vou adequando ao perfil dessa consumidora, que muda conforme o tempo”.

Atelie da Iodice
A fachada do prédio que abriga a Iódice, em São Paulo

O showroom

No prédio-matriz da Iódice, a poucos metros do parque Villa-Lobos, está concentrada toda a confecção e produção da marca. Além disso, é também nesse local que está localizado o showroom. O espaço recebe buyers de diversas multimarcas que estejam interessadas em adquirir peças da marca para revenderem em suas boutiques. Além das vendedoras, o showroom conta com uma modelo, que está a disposição dos vendedores para experimentar algumas peças de roupa. Embora não seja tão frequente, o showroom também recebe produtores de revistas e sites que estão buscando peças para editoriais ou matérias. Portanto, ali estão não somente as peças comerciais da marca, como também algumas conceituais que apareceram nos desfiles.

Atelie da Iodice
O showroom da Iódice é interno: assim, os compradores de multimarcas do todo o país podem fazer suas seleções com tranquilidade
Atelie da Iodice
Nas araras, um pouco de tudo

De alguns anos para cá, a Iódice ganhou uma segunda marca, a Iódice Denim. Embora as duas labels estejam localizadas nesse mesmo prédio, tanto as confecções quanto o próprio showroom são separados. A proposta das duas, por sua vez, é completamente diferente. Enquanto a Iódice trabalha com roupas conceituais, a Iódice Denim possui um público mais jovem e produz peças mais casuais e comerciais. O padrão de qualidade, no entanto, é o mesmo.

Pela confecção da Iódice

A área de criação é a primeira parada na hora de criar uma coleção. “A princípio é assim, eu acho que hoje todo mundo que trabalha na Iódice tem claro o perfil do nosso consumidor. Partindo desse princípio, a gente tem base de olhar para aquilo na coleção que passou, aquilo que teve mais aceitação – não só nas multimarcas, mas também nas nossas lojas próprias – e parte daí a nossa coleção”, divide Valdemar. “Depois de criado um tema, procuramos trabalhar esse conceito mais na estamparia e nas cores do que da modelagem e nos tecidos. Para desenvolver essa última coleção, por exemplo, eu fui lá para a Toscana, fotografei aquela cerâmica pintada à mão, trouxe as referências, e passei para as meninas, que passam para o desenvolvimento de estamparia. Depois eu aprovo a cor, o tamanho da estampa. É um trabalho feito em grupo. Não dá pra ficar em cima de tudo, tem que deixar a coisa andar. Mas estou sempre a par de tudo que está acontecendo.”

Atelie da Iodice
Fichas técnicas, amostras de tecidos, aviamentos…
Atelie da Iodice
Mil e uma referências

Segunda etapa: modelagem

Uma vez definidas as peças, os desenhos técnicos passam para a mão da modelagem, que faz os moldes das peças em papel kraft, para depois cortar os tecidos e só então encaminhar tudo isso para a costura. E uma vez pronta a peça-piloto, que nada mais é do que um teste, chega a hora de prová-la e fazer as modificações que o estilista julgar necessário. Tudo para que não haja erros!

Atelie da Iodice
Segunda etapa: modelagem
Atelie da Iodice
Aqui, a prova é essencial e faz toda a diferença

Última parada: o estoque

Assim que as peças ficam prontas, depois de passarem pela criação, pilotagem e produção, elas chegam ao estoque. Daqui, elas são redirecionadas para as lojas próprias da Iódice ou para alguma multimarca. Da mesma forma, uma vez que a compra foi fechada no showroom, se as peças já estiverem disponíveis, os compradores podem retirá-las por aqui.

Atelie da Iodice
Muito bem preparado para receber os compradores, o estoque tem um pouquinho de toda a coleção
Atelie da Iodice
O que não houver no sistema “pronta entrega”, é confeccionado e só então enviado para as marcas

Bate-papo com Valdemar Iódice

Durante a visita ao ateliê da Iódice, cruzei com o estilista e conversamos um pouquinho sobre os obstáculos enfrentadas pela grife, o momento atual da moda nacional e os planos para o futuro.

No começo da Iódice, o que você enfrentou de problemas? E como está esse cenário atualmente?

Valdemar Iódice – Eu acho que na época que eu comecei, não tinham tantos obstáculos, nós não tínhamos tanta concorrência como temos hoje. Se você tinha um trabalho focado e direcionado para seu publico alvo, você não tinha problema, você conseguia vender. Então eu não via tantas dificuldades.

Atelie da Iodice
Atrapalhamos o estilista Valdemar Iódice e fomos conversar sobre como está o mercado nacional

O que você encontra de desafios atualmente?

No Brasil, começa que você não tem matéria prima. Não tem matéria prima de tecido plano, como a seda. Malharia você ainda encontra, mas isso é um grande problema. Em segundo lugar, as taxas que o governo está desonerando inclusive em cima de salários, e você paga um pro instituto um valor fixo sobre faturamento. Mesmo o ICM, no estado de São Paulo, houve um abatimento para a indústria e para o varejo ainda não. Mas eu acho que quando você tem foco no seu negócio, quando você sabe o caminho que tem que traçar, o que é necessário para a sua companhia ter um produto adequado, preço adequado, que chega no ponto de venda e o consumidor gosta do produto, e você faz uma adequação de tudo isso com o marketing – que você não pode deixar de fazer – eu acredito que o mercado é favorável.

Você acha que a mudança no calendário dos desfiles vai melhorar a competitividade das marcas nacionais no mercado global?

Eu acho que o mercado internacional está muito aberto para a linha de biquínis e moda praia. Isso é uma grande realidade dentro do nosso segmento porque nós temos uma mão de obra cara, somos obrigados a importar tecido para poder fazer uma coleção, então a gente não fica competitivo para exportação. E você está competindo com dois grandes países do mundo, Itália e França, que já fazem moda há mais de cem anos. Então você vê na linha de praia uma grande evolução, mesmo porque a Abest tem um setor que é o “+ Beach Brasil”, em que a gente apoia as feiras lá de fora. Na Mercedes-Benz Fashion Week de Miami deste ano, nós estivemos presente com 19 marcas brasileiras, é um número muito bom.

Um dos mercados que está surpreendendo é o da China, porque o chinês está começando a consumir dentro do país dele. Então a gente percebe que tem uma evolução de compra muito grande dentro da China.

Quais os planos de expansão da Iódice? Você pensa no mercado exterior?

A gente já exportou muito. Já fizemos dois desfiles em Nova York e já exportamos bastante mas como nós temos muito para crescer no mercado interno, hoje a gente só exporta pro México, através de uma ótima parceria. Por enquanto não tenho intenção nenhuma – como eu sou presidente da Abest, lá eles me cutucam: “Vai exportar? Vai fazer?”. Eu não tenho tempo, não dá pra fazer isso agora. Então a intenção mesmo é crescer no mercado nacional, a gente tá indo pro varejo com mais força. Já estamos com 20 lojas, e queremos cada vez mais focar no mercado nacional, nós temos muito o que crescer aqui.

Pin It